De ciclotimia, cansaço e testes

Estou cansado.

Há mais de um ano e meio repito os mesmos diálogos, leio as mesmas respostas, vivencio as mesmas decepções. Em todos os mesmos aspectos.

Minha vida se desenrola num ritmo ciclotímico que me engole na mesma velocidade em que transito do TRANQUILO ao CAÓTICO.

No começo de tudo isso disse a mim mesmo que não queria me transformar num cara monotemático, monótono e, ironicamente, monocórdio. Mas a forma como as coisas têm se desenrolado enquanto continuo a percorrer a vida – que, por bem ou por mal, não parou -, me faz ver que é inevitável deixar que os acontecimentos de 6 de julho de 2010 me contaminem.

Sei que são parte da minha história. Às vezes, quero esquecê-los. Outras, contra minha vontade, relembro o que eu era antes deles. E o que eu poderia ter sido sem eles.

Mesmo que eu não queira, são divisores de águas na minha vida.

Mas essas são as mesmas águas me encharcam com uma nostalgia pela qual não pedi e com a qual, por vezes, não consigo conviver.

Cansa.

Esgota.

Drena forças.

Estou cansado.

Se tudo isso for um teste, quero entregar a prova ao professor e sair da sala.

O “efeito surdo” e a dissimulação em duas caras

Embora eu tenha lá meus problemas de auto-estima, uma das poucas certezas que tenho sobre mim é que, em essência, sou um cara do bem. Não sou muito fácil de se lidar, mas sou de bom caráter. Divertido. Bem humorado – mesmo que meu humor ácido não seja pra todo mundo, o que não faz de mim o cara mais popular do mundo.

Apesar da minha timidez, que aprendi a disfarçar, nos últimos anos, tornei-me mais sociável, sem deixar que o medo crônico das ocasiões sociais me impedisse de viver. Isso foi providencial. Imagine o caro leitor o que seria de mim atualmente se, além da minha timidez, eu tivesse me rendido a essa senhora chamada surdez, que se imiscuiu na minha vida há quase um ano e meio.

Durante esses quase 18 meses, não pude ignorar a ocorrência de um fenômeno interessante. Chamo-o de “efeito surdo”, mas essa denominação pode ser adaptada para cada deficiência.

Nesse tempo todo, não pude deixar de notar que a deficiência desperta na maioria das pessoas que conheci depois que fiquei surdo uma espécie de compaixão que, dependendo da ocasião e da pessoa que a manifesta, tramuta-se em pena – coisa que abomino porque ter pena de alguém não deixa de revelar uma certa atitude condescendente, como se deficientes fossem seres inferiores.

Estivesse na medida adequada, essa “compaixão” não seria de todo ruim. Em dose suportável,  principalmente continuaria a facilitar minha sociabilidade e não me deixaria sujeito às adversidades que todo tímido experimenta.

Talvez por isso me surpreenda tanto quando conheço novas pessoas nessa fase pós-surdez e sou confrontado com um tratamento tão amistoso. Eu poderia atribuir isso a diversos fatores (sorte, educação e cordialidade dos interlocutores, média cultural do ambiente em que isso ocorre), mas essa compaixão genuína ou dissimulada tem lá suas vantagens, mas não deixa de me confundir. Sempre levanta uma questão intrigante:

Será que estão sendo legais comigo por que sou surdo ou por que sou Adriano?

Até hoje não sei.

Relatar isso pode parecer que estou querendo confete para minhas qualidades. Mas não estou.

Felizmente, hoje em dia, sei exatamente quem está sendo sincero comigo. Sinceros são, em grande parte, os amigos e conhecidos, com os quais já tinha contato antes dos eventos do dia 6 de julho de 2010. Tanto sei da sinceridade do seu tratamento que os mantenho no meu círculo de relações. E vejo que tomei uma decisão acertada.

Os que se mostram artificialmente amistosos comigo são, em sua maioria, pessoas que, mesmo em tempos pré-surdez, nunca me reservaram tratamento sincero e agora acham que minha surdez fará mais fácil mudar minha avaliação quanto a elas.

Ou estão buscando acumular  “boas ações” no seu currículo espiritual. Sucumbem à ideia distorcida de que surdos são seres desligados do mundo, ingênuos ao extremo, facilmente enganáveis. A estes, reservo o meu mais elevado sarcástico e ácido deprezo.

Feliz ou infelizmente, por questões de diplomacia, não posso falar diretamente a estes que, se não gostarem de mim pelo que sou, não usem o subterfúgio da minha surdez para justificar sua compaixão dissimulada.

Sou Adriano, não sou cego. Sou surdo, mas a surdez não traduz toda minha essência.

Entenda de uma vez por toda: em geral, deficiências não definem nenhuma pessoa.

A única deficiência que define alguém é a pior delas, a de caráter, da qual, felizmente, eu não padeço.

Telemarketing…

Revisitando emails antigos, achei esse texto q escrevi inspirado pela minha tentativa de cancelar uma assinatura do Terra, em 2006, qdo ainda ouvia.


Telemarketing…

Teleatendimento de um provedor de Internet.

- Fulana de tal, boa tarde. Em que posso estar ajudando?
- Boa tarde, eu gostaria de cancelar a minha assinatura.
- Sim, senhor. O senhor gostaria de estar cancelando sua assinatura?
- Sim, por favor.
- Um momento.

Dois minutos de espera…

- Senhor, desculpe a demora. Eu poderia estar sabendo o motivo do cancelamento?
- Não preciso mais do serviço.
- Eu poderia estar sabendo por que o senhor não precisa mais do serviço?
- Assinei outro provedor.
- O senhor sabe que oferecemos 408 milhões e 500 mil vantagens como e-mail eterno e infinito e proteção que bloqueia até o vírus da AIDS?
- Sei. Mas eu queria cancelar a assinatura mesmo assim.
- Só mais um momento, por favor.

Nove minutos…

- Se o senhor estiver cancelando sua assinatura o senhor vai estar perdendo os bônus da promoção Use nosso provedor, ganhe na loteria e fique zilionário pra sempre, que oferece 30 dias grátis de limusine?
- Por favor, eu queria fazer o cancelamento da assinatura…
- Sim, senhor. O senhor gostaria de estar cancelando sua assinatura?
- Por favor…
- Um momento.

Doze minutos, dez gravações e quinze musiquinhas irritantes depois…

- Senhor, vamos estar fazendo o cancelamento da sua assinatura.
- Deus seja louvado…
- O Senhor gostaria de estar louvando a Deus?
- Não, minha filha, só quero cancelar minha assinatura.
- Ok, senhor. Para poder estar cancelando sua assinatura, preciso das cópias de seus últimos seis contra-cheques, três cópias do seu RG, duas tampas de Doriana e uma embalagem de Leite de Coco Q-Coco…
- Eu só quero cancelar a assinatura…
- O senhor gostaria de estar cancelando sua assinatura?
- Sim, por favor.
- Um momento…

Mais dez minutos…

- Senhor, a minha supervisora me informou que se o senhor não estiver cancelando sua assinatura, o provedor vai estar oferecendo uma viagem de ida e volta com acompanhante pra Plutão com escala em Marte…
- Não, obrigado. Eu só quero cancelar a assinatura.
- Um momento, por favor.

Quinze minutos e trezentas e vinte e cinco gravações depois…

- Senhor, o senhor gostaria de estar cancelando sua assinatura?
- Olha minha filha, eu só quero cancelar a minha assinatura.
- Eu sei, senhor, mas eu preciso estar dando essa informação para o senhor.
- Eu não quero ouvir nada. Eu só quero cancelar minha assinatura.
- Senhor, eu vou estar cancelando sua assinatura, mas antes preciso estar informando ao senhor que o senhor ainda tem direito…
- Eu não quero ter direito a nada. Eu só quero ter o direito de cancelar minha assinatura…
- Mas, senhor, a informação…
- Não quero ouvir… Lá lá lá lá…. Só quero cancelar minha assinatura.
- Senhor, podemos estar oferecendo algumas vantagens…
- Não quero. Eu só quero cancelar minha assinatura.
- Um momento, por favor.

- Senhor, minha supervisora esteve me informando que se o senhor não estiver cancelando sua assinatura, nós podemos estar lhe dando uma camisa, um boné, um aparador de unhas, um desencaroçador de azeitonas e uma caixa de pregos…
- Eu quero cancelar a assinatura.
- Senhor, mas estaremos lhe dando, ainda, …
- EU SÓ QUERO CANCELAR MINHA ASSINATURA! Será que isso é possível?
- É sim, mas por que o senhor não disse antes?!

Adriano Rodrigues

Tsunami afetivo em versão egípcia

Julho/2011

Como em todas as relações intensas que possuo, sempre mantive uma ligação de altos e baixos com Ísis. Já não lembro há quanto tempo a conheço, mas isso já não importa porque lembrá-lo exatamente não influiria na minha avaliação sobre essa criatura de sangue mineiro, de origem paraense e de essência muito mais maranhense do que vários conterrâneos que conheço.

Embora ache que há algumas diferenças marcantes entre eu e ela, sei que somos seres extremos, cada um ao seu modo. Transitamos com facilidade entre os extremos da felicidade e da tristeza. Isso é bom ou ruim? Não sei.

Mas ter certeza de tudo faria do mundo um lugar monótono e enfadonho e, caro leitor, entediante é uma coisa que Ísis Lucas de Braga não é.

Ísis é superlativa, ser em que emoções transbordam, explodem e chegam a assustar e divertir ao mesmo tempo.

É caricata.

Quando penso nela, me vêm à mente as imagens de uma mãe italiana, com todos os seus arroubos emotivos, e a dramática personagem Dona Armênia, interpretada por Aracy Balabanian, na novela Rainha da Sucata.

Atrevo-me a declarar que tenho conhecimento de causa para dizer que a natureza hiperbólica de Ísis esconde uma fragilidade que ela insiste, sem sucesso, em disfarçar.

Com suas fragilidades visíveis a quem a conhece profundamente, Ísis se reserva o direito de se apaixonar pela vida porque apaixonar-se a torna mais humana, como se assumir fragilidades não fosse sinal de sensibilidade e humanidade.

“Ísis é uma galinha, que adora guardar seus ‘filhos’ sob suas asas”, certa vez me disse Ígor, seu irmão. De fato, no antigo Egito, a Ísis original era também a deusa da maternidade.

Talvez sem saber, fazendo jus à inspiradora do seu nome, a Ísis que resulta da mistura entre Minas Gerais, Pará e Maranhão, tem um senso de maternidade que comicamente extrapola na relação dela comigo. Leva seu nome muito a sério. Diverte.

Mesmo sem precisar, Ísis é a única amiga que tenho que faz questão de reafirmar que me ama toda vez que me vê, em uma intensidade digna de novela do SBT. E de tanta intensidade, me deixa com medo dela desabar, em prantos, ali mesmo…

Sei que soa contraditório tentar resumir em poucas palavras um ser como Ísis, que é, mesmo elevada ao menor expoente, por essência, quase incomensurável, mas essa é a Ísis que vejo.

Apaixonada.

Intensa.

Ebuliente.

Hiperbólica.

Fenômeno natural.

Tsunami afetivo.

Passionalmente passional.

Superlativa.

Ísis não é Ísis.

É Isíssima!

Rápidas notas sobre surdos, extraterre$tre$ e cornucópias*

À medida que avança meu convívio com essa condição de portador de deficiência, me convenço cada vez mais que entrei para um grupo de extraterrestres socioeconômicos.

Caro leitor, nasci e vivo atualmente na capital maranhense, São Luís, incluída pelo Censo 2010 do IBGE no grupo de nove capitais brasileiras com mais de um milhão de habitantes. Não somos uma metrópole, nem por critérios demográficos e tampouco por critérios estruturais, mas, convenhamos, 1.014.837 pessoas é gente pra caralho!

Talvez por isso tenha dificuldade de entender por que nos estabelecimentos comerciais aos quais vou em São Luís sou tratado como o único surdo da cidade.

Antes de me acusarem de dizer que essa é uma situação exclusivamente ludovicense, afirmo preventivamente que isso é generalizado. Já me aconteceu nas várias vezes em que estive em Brasília depois dos acontecimentos de julho de 2010 . Já me ocorreu em todas as cidades que visitei (Buenos Aires, Montevideo, Belém) depois que fiquei surdo. E tenho certeza que vai acontecer em qualquer outra cidade que visitar!

Bom, voltemos ao microcosmo ludovicense…

Pois bem, em São Luís, foram raras as vezes em que entrei numa loja, avisei que sou surdo e os vendedores não agiram como se estivessem vendo um ser de outro  mundo. “Meu Deus! Um surdo!”, denunciam suas caras e expressões faciais.

Até ouso afirmar que, nessas horas, a diferença entre o que eu falo e o que eles ouvem é abismal. Alguns agem como se eu estivesse anunciando um assalto ou um estupro. Ou como se eu estivesse dizendo “Leve-me ao seu líder!”.

E vamos combinar que o surdo da estória sou eu…

Até entendo que seja “natural” a recorrência de que a maioria das pessoas achem que não sou surdo pelo fato de eu falar normalmente. Lamento que seja a concepção popular de que os surdos são somente as pessoas que nasceram sem audição e que, por consequência, não aprenderam a vocalizar e se comunicar falando como a maioria das pessoas.

Eu mesmo não sabia disso até ter sido mergulhado na condição de surdo. Mas esse é assunto pra outro capítulo.

Em São Luís (aquela cidade que tem 1.014. 837 habitantes, segundo o IBGE, lembram?) é frequente que, por mim questionados, prestadores de serviços (taxistas e vendedores, em sua maioria), revelem que fui/sou seu primeiro cliente surdo.

Apesar da boa vontade da maioria deles, é inevitável observar que parece que, sob o aspecto comercial, a maioria das pessoas acha que quando você é surdo, você não tem uma vida além da sua deficiência. Não consome nenhum produto. Não usufrui denenhum serviço. Não tem nenhuma  necessidade material que não seja uma prótese auditiva. Parece que a resposta para suas necessidades materiais brota infinitamente de uma cornucópia*.

Para ficar só em um aspecto da observação que me levou a escrever o que você está lendo agora, devo dizer que talvez essa concepção comercialmente equivocada explique o reduzidíssimo número de comerciais legendados exibidos na TV brasileira.

Nestes 13 meses de surdez, só vi um VT não-governamental legendado: um da Coca-Cola que, feliz e brilhantemente, chegou à conclusão de que surdos também bebem refrigerante!

Mas o resto das empresas ainda não descobriu que surdos dirigem, usam roupas, vêem TV, viajam, usam artigos de higiene e beleza.

Compram.

Enfim, vivem.

Não somos ETs. Somos pessoas com necessidades de consumo e com dinheiro para provê-las. Somente não ouvimos.

É tão difícil assim lembrar disso?!

*Mitologia. Vaso em forma de chifre, com frutas e flores que dele extravasam profusamente, antigo símbolo da fertilidade, riqueza, abundância, e que, hoje, simboliza a agricultura e o comércio.

Quero morar no Facebook!

Quero morar no Facebook.

Lá, só entram seres felizes, realizados, transbordantes de felicidade, estáveis, perfeitos, demasiadamente alegres, tal qual uma novela de Manoel Carlos. A diferença é que não moram no Leblon, mas fingem…

Quero morar no Facebook.

Lá, embora uma análise realista revele que a estória não é bem assim, todos tentam pateticamente incorporar personas felizes e exultantes.

Quero morar no Facebook.

Fosse eu terapeuta, odiaria o Facebook porque, para a maioria dos seus habitantes, é como se os caracteres do seu status tornassem desnecessária qualquer terapia psicológica ou psiquiátrica. Ou as duas ao mesmo tempo.

Mesmo assim, quero morar no Facebook.

Lá, a vida é uma festa interminável e nada custa caro.

Lá, as pessoas vivem num eterno Carnaval, aquela época em que os idiotas brasileiros, mesmo sem nada pra comer em casa, são “obrigados” a serem felizes.

Quero morar no Facebook.

Todo mundo tem dinheiro pra gastar. Frequentam todos os eventos disponíveis: velórios, shows, queimações de palhinha… Até aniversários de boneca e de cachorro.

Quero morar no Facebook.

Se lá tudo é de graça, não faz mal mergulhar acriticamente na estética da “felicidade” imbecil.

Quero morar no Facebook.

Lá, não há pessoas tristes. Não há profissionais mal resolvidos. Todos estão no emprego que adoram. Adoram acordar cedo ou dormir tarde por causa do trabalho que, mesmo pagando um salário de fome, é o auge de sua “realização”.

Quero morar no Facebook.

Lá, ninguém é hipócrita e todo mundo acredita piamente no que digita, mesmo que não ponha em prática porra nenhuma do que escreve.

Quero morar no Facebook.

Também quero ser “facebookiamente” bonito e ter fotos como num álbum de Poliana (aquela personagem imbecil que acha tudo lindo). E haja sorriso e felicidade patética…

Mesmo que, para alguns, o mundo de bits de Mark Zuckerberg seja a exacerbação patética da autoafirmação humana medíocre e inócua, eu quero morar no Facebook!

Quero morar no Facebook.

Quero virar um teletubbie sem cérebro e sem nada que me tire desse transe de alegria imbecil porque é isso que querem as pessoas que estão adicionadas no meu perfil, mesmo que eu recorrentemente “limpe” do meu perfil as pessoas com bom senso que ousam discordar da minha eterna alegria babaca.

Quero morar no Facebook porque lá todas as agruras do cotidiano se resolvem com um simples CURTIR. Acabam-se aí os problemas da vida…

Quero morar no Facebook.

Quero ser pateticamente feliz também.

Algum feliz imbecil de plantão sabe de uma vaga pra me indicar?

Latitudes e longitudes para lidar com Adriano Rodrigues

Já escrevi sobre Felipe.

Já escrevi sobre Igor.

Já escrevi sobre Renato Gurgel.

Já escrevi sobre Carlos Júnior.

Já escrevi sobre Camila.

Já escrevi sobre Gustavo Pinho.

Já escrevi sobre Marco Aurélio.

Mas nunca escrevi sobre mim.

Não dessa forma.

Mesmo que a tarefa de auto-descrição seja árdua (porque enseja o equilíbrio adequado entre arrogância e modéstia) e traiçoeira (porque requer uma transparência que depois pode ser usada contra você), cheguei à conclusão que seria bom evidenciar como meus olhos fisicamente míopes me vêem. Talvez isso ajude a quem interessar entender esse ser aparentemente complexo que sou.

De alguma forma, este blog expressa o que sou, o que penso, o que sinto. Mas não expressa diretamente como eu me vejo. Esse é um exercício sobre o qual nunca me debrucei.

Mas tem sempre a primeira vez para tudo.

Prazer, sou Adriano.

Nasci aos 13 dias de abril de 1977, 1024 anos depois do matemático iraquiano Abu Bekr ibn Muhammad ibn al-Husayn Al-Karaji, sobre quem não sei porra nenhuma. Tá bom, o cara não era famoso mesmo…

Quer tentar Thomas Jefferson (1743) e La Fontaine (1695)?

Pelo bem da informação útil que todo jornalista, como eu, deve prezar, deixo-os saber que no dia do meu aniversário, em 2002, cadernetas de poupança renderam 0,7309%  (e eu nem tinha caderneta de poupança então!) e, graças a Deus, Roseana Sarney desistiu de se candidatar à Presidência da República. Presentão de aniversário!

Prefiro me considerar um cara de boa essência, mas isso não significa que estou isento de defeitos. Pelo contrário… Tenho muitos!

Diria que meu pior defeito é a incapacidade de deixar as coisas sem resposta. Sempre tenho algo pra dizer quando tentam me desafiar, agredir, ridicularizar…

Entre outras coisas, sou estressado. Facilmente irritável.

Não tenho muita paciência para lidar, principalmente,  com gente burra e/ou criaturas que, apesar de ter tido a mesma formação que eu, não sabem a diferença entre um “estar” e um “está”.  Atribuo isso à minha inteligência e à minha facilidade de aprendizagem. Foi mal, mas esqueci e desligar o modo #arrogância…

Não sou nenhum Machado de Assis, mas, dentre várias coisas, prezo a Língua Portuguesa, bem falada, bem escrita, com concordâncias corretas. Das poucas certezas que tenho sobre mim é que falo e escrevo bem em Português e em Inglês.

Sem prejuízo de análise crítica quanto ao imperialismo norte-americano (recuso-me a chamar estadunidenses como americanos, da forma como estes geralmente querem – como se a América não fosse constituída pelas Américas do Sul e Central…), sou entusiasta  da Língua Inglesa, na qual tenho fluência incomum, sem falsa modéstia e hipocrisia.  Já falei sobre isso aqui.

Desculpem mas nada que me falem vai mudar esses fatos. Somente vai mudar minha abordagem quanto a eles. Quem sabe…

Em grande medida, me considero um cara que não é hipócrita. Por ojerizar hipocrisia, consequentemente odeio suas materializações como eufemismos do tipo “moreno escuro” em vez de “negro”. Eufemismos escondem uma falsa pose de correção política, com a qual não concordo. Prefiro a verdade crua aos eufemismos porque costumam adiar seus efeitos catastróficos.

Não sou ateu. Não nego a existência de Deus, a quem imagino como um enorme Cristo Redentor, mas sou crítico contumaz da Igreja Católica e seu modus operandi. Quem mais matou e roubou na Idade Média? Lembram da Inquisição e da venda de indulgências? Lembro ter lido sobre isso nos tempos do colégio, mas os santíssimos senhores bispos e padres parecem ter uma conveniente memória curta. E ainda ficam apontando a Igreja Universal do Reino de Deus! É o capeta da hipocrisia agindo…

Para mim, hipocrisia e cinismo andam de mãos dadas. Talvez por isso tenha tanta dificuldade em entender porque a morte de alguém é imediatamente seguida de “canonização” e “limpeza” do caráter do defunto. O cara pode ter sido um filho da puta a vida toda, mas basta que morra para que ele vire “uma pessoa íntegra, honesta, de que todos gostavam”. Não entendo mesmo.

Não sou interesseiro, mas isso não significa que sou altruísta desmedido. Não faço coisas com o objetivo de receber favorecimento pessoal mais tarde. Faço, ajudo, mas valorizo um bom “muito obrigado”, reconhecimento. Confesso. E quem não consegue reconhecer isso no trato comigo costuma exercer efeito contrário: em vez de meu interesse em ajudar,  recebe desprezo momentâneo.

Na média, sou um cara calmo, com atitude tranquila e com uma aparente “cara de quem caiu no mundo de para-quedas”, que se altera nos momentos em que noto que alguém está tentando me enganar. Aí, fico irreconhecível. Coisa de camisa-de-força mesmo.

Por mais que eu diga, não consigo odiar ninguém. Quando falo que odeio alguém, é pura forma de expressão. Dizem por aí que nutrir sentimentos de ódio faz muito mal, mas essa não é a justificativa para eu não odiar ninguém. Só não consigo, o que acho que é uma prova da minha boa essência. Canonizem-me logo!

Até gostaria de odiar as pessoas que me fizeram mal porque isso funcionaria como um sentimento de autopreservação. Mas não consigo.

Não é que não seja diplomático. Sou, mas não o tempo todo. Depende de como o manual de instruções me orienta. Creio que todo mundo tem um manual de instruções. Costumo consultá-lo e, na medida do possível, uso suas orientações. Talvez isso explique porque me dou tão bem com pessoas que costumam ser taxadas de difíceis. Tenho meus méritos nessa tarefa.

Sou bem humorado, mas isso não significa que sou palhaço e tampouco gosto de ser tratado como tal. Adoro humor negro e besteirol, o que pode levar à constatação de que não tive infância. Isso é verdade. Tanto que, nos idos tempos do Orkut, usava o Bozo como um alter ego. Talvez algumas pessoas convenientemente tenham aproveitado esse fato pra me taxar de palhaço!

Sou entusiasta da tecnologia, principalmente no que se trata da cibercultura, o que pode explicar o fato de que sou relativamente viciado em Internet.

Sou tímido. Observo muito antes de dar passos em direção a ambientes e pessoas novas. Quem me vir devidamente ambientado em um lugar ou em uma situação terá dificuldades em dizer que sou tímido. Sou calado, até que o desconforto inicial se dissipa.

Depois que isso acontece, viro uma mala verborrágica sem alça e sem rodinhas. Nunca soube se isso é um catalizador pro número de pessoas com quem mantenho boas relações de coleguismo ou amizade (Isso mesmo! Não chamo amigo todo mundo que conheço).

Falando em amizades, eu as valorizo muito, desde que eu veja reciprocidade. Caso contrário, isso exerce o efeito contrário em mim. Sou carente. E quem não é? Por que eu seria diferente?

Tenho depressão, que se manifesta em situações-limite. Já falei disso aqui. Já até pensei que sou bipolar, mas desisti desse diagnóstico porque preferi ser eu mesmo.

Sou Adriano e quero que me vejam como tal.

Prazer.

On/off

Às vezes, me pego pensando que minha surdez é algo temporário. Por mais que tento, não consigo evitar achar automaticamente que tudo isso é parecido com as épocas em que passei dias na UTI (quando tive os dois AVCs que me acometeram em 2010), quando esperava ansiosamente minha transferência para algum apartamento do hospital.

Esses momentos de ilusão costumam coincidir quando vejo coisas corriqueiras.

Caro leitor, chamem-me de chorão. Posso ser. Mas sou tb transparente.

Quem me conhece com alguma profundidade, sabe que tendo à depressão. Isso não é segredo.

A coisa não funciona como as pessoas pensam.

Ninguém opta por se deprimir. Fica-se. Somente isso. E ninguém fica curado de depressão. Ela fica gravada na sua alma, espreitando, aguardando o aparecimento de mínimas brechas onde você acha que a guarda.

Mas, sinceramente, parece que nos últimos dois anos o mundo anda conspirando pra me deprimir.

Eu já disse aqui uma vez que estou cansado de fingir ignorar as circunstâncias da minha surdez. Fingir ignorar como e quando ela optou pra se apresentar pra mim. O que me fez perder. O que me fez sentir falta diariamente.

Pra mim, minha surdez parece com as vezes em que você tem que dar um pause no filme que está assistindo para atender a porta ou atender o telefone.

Não gostaria de dar tanta importância a coisas normais que se diluem na rotina da maioria de todas pessoas. Ligações telefônicas, música, shows, conversas que fluem sem pausas para que o interlocutor termine de escrever o que quer dizer…

Mas dou.

Nessas horas, um botão on-off ajudaria…

Breves notas sobre divas incomuns e bússolas no Planalto Central

Summer Camp - CS Brasília - Dezembro 2010

Depois que voltei de Brasília, em uma conversa no Gtalk com Victor (amigo, nefelibata, também jornalista, ex-colega de trabalho na Capital Comunicação e, assim como eu, integrante do Couchsurfing), recebi dele a melhor definição para Camila, brasiliense da República do Guará, que tive o prazer de conhecer na minha estadia de seis meses em Brasília.

“Onde vc jogar ela (sic), ela sai de lá em 5 minutos com mais 20 pessoas no Facebook”, disse-me.

Mesmo sem a mesma história de convívio com Camila, atrevo-me a dizer que a definição dele a comporta sem faltas e sem excessos.

Camila é o tipo de pessoa que vai a um velório e, quando sai, já fez amizade com a maioria das pessoas presentes, inclusive com o defunto. Não sem antes de transformar o velório em uma rave ou organizar uma festa para uma ocasião posterior. E a festa vai lotar!

Camila é facilmente amável. O que isso significa na língua de Camões? Significa que não se faz muito esforço para gostar dela e que aqueles que dela não gostarem precisam de ajuda psiquiátrica urgente.

Meus olhos vêem uma Camila irrequieta, que parece querer emprestar ao mundo um pouco de sua eletricidade e fazê-lo funcionar na sua velocidade. Sempre lembra-me da protagonista da série norte-americana Drop Dead Diva.

Tão determinada quanto a diva televisiva, Camila, para o alívio de todos que, como eu, a vêem como ponto convergente, não guarda arroubos de arrogância típicos das divas.

Camila não é temperamental. Não odeia a felicidade da bagunça festiva. Pelo contrário, incentiva-a. Organiza-a.

Sem medo da pieguice e pedindo ajuda a um neologismo legitimamente “camílico”, ouso afirmar que essa brasiliense faz mais felizes as “horas felizes” do CS brasiliense.

Nessas horas, Camila saca um dos aspectos de sua personalidade que mais admiro: sua capacidade extrema de se localizar em qualquer situação, a qualquer hora, em qualquer espaço.

E mesmo se eu tivesse conhecido outras Camilas enquanto estive em Brasília, não duvidaria que elas não seriam como a minha Camila, que veio de fábrica com uma bússola multifuncional instalada.

Por sua extrema capacidade de sociabilidade, Camila, mesmo sem querer, é um ponto de convergência de todos os CSers locais e visitantes de Brasília. E até as árvores do Piauí (um dos QGs do CS brasiliense) sabem que Camila é a pessoa que você deve contatar quando chegar a Brasília.

A tudo isso, ela soma uma gargalhada infantil, que seus pequenos dentes e bochechas de criança levada não conseguem disfarçar. Sua gargalhada foi feita sob medida para ser a legítima expressão da cor do seu espírito.

E se é possível que se pode definir a cor do espírito de alguém, ainda faltam à paleta opções para definir a cor do espírito de Camila.

Agora lembro que, como Victor me disse no Gtalk, “não tem como odiar gente assim”.

E, eu cá, a 1957 km de distância, penso comigo que Victor está completamente coberto de razão.

Há completude sem música?

A identidade de um indivíduo é o resultado de múltiplos valores adquiridos em diversos espaços: família, escola, círculo de amigos. À medida que vive, a estes valores o indivíduo adiciona o que proporcionam os filmes que vê, as músicas que ouve, os livros que lê.

Desde que fiquei surdo, a óbvia falta de música me deprime. Essa falta, aliada à relativa impossibilidade de lembrar, no mínimo, das letras e melodias da músicas que ouvi durante 33 anos, amplifica a sensação de impotência frente às circunstâncias em que fui mergulhado há quase um ano.

É possível que a ciência médica, se consultada, me diga que foi um reflexo direto do AVC nº 2/2010. Mesmo assim, não deixo de temer a perda de parte importante da minha identidade como indivíduo.

Sei que a identidade de alguém não é só formada pela memória musical. Mas também sei que, ao ouvir uma música, o indivíduo entra em contato com emoções e lembranças que se imprimem na sua memória. Evocam lembranças de lugares, sentimentos, situações. Assim como as páginas de um livro registram o sentido de sua existência, a memória musical de um indivíduo responde por parte do sentido de sua existência.

Não vou dizer que, antes do AVC nº02/2010  eu era um daqueles “seres que não vivem sem música”, mas os acontecimentos que me deixaram surdo me encontraram em um momento no qual a música era minha companheira constante.  Talvez por causa disso, aliada à surdez, a falta de música me deprima tanto. Em Brasília, no metrô, indo ao trabalho ou dele voltando, a música tinha lugar privilegiado na minha vida.

Isso talvez explique porque eu tinha um cartão de memória de 8Gb quase inteiramente preenchido por Mp3′s, reproduzidos continuamente desde a hora em que saía de casa pro trabalho (e no trajeto inverso também) e mesmo enquanto aguardava o sono à noite.

Na Capital Comunicação não era raro que Fred, amigo e chefe, atirasse algo em mim para atrair minha atenção enquanto estava mergulhado nas músicas que fluíam dos headphones do meu celular.

Essa época coincidiu com a descoberta de novas bandas e cantores. Estava numa fase mais latina e menos americana, habitada por bandas como Soda Stereo (Argentina), Babasónicos (Argentina), Aterciopelados (Colômbia). E é bem provável que, no momento em que “apaguei” no dia 6 de julho de 2010, estava ouvindo alguma destas bandas.

Há uns dois meses, por recomendação da minha fonoaudióloga, comecei a “ouvir” músicas para, supostamente, reativar os fragmentos da audição que estariam perdidos em algum lugar no meu cérebro. Estratégia que provar-se-ia estéril posteriormente.

Ao tentar entender o que ouvia (sic), era impossível não me sentir impotente, preso em uma situação que me amedrontava. Parecia como se minha vida tivesse sido congelada por volta das 15h do dia 6 de julho de 2010 e não consegui descongelá-la. Parecia que eu estava perdendo parte da memória que me fazia indivíduo.

Essa sensação se amplifica em momentos-limite. É quando o som, ao me faltar, lembra-me de uma incompletude que as circunstâncias não podem e nunca poderão preencher.

Um desses momentos ocorreu no domingo, 29 de maio, quando fui ver o filme O concerto, do diretor romeno radicado na França, Radu Mihăileanu.

O filme retrata o renomado maestro Andrei Simoniovich Filipov 30 anos depois de sua demissão da orquestra do Teatro Bolshoi, nos quais seguiu trabalhando como auxiliar de limpeza. Por um daqueles lances do destino que só são possíveis no cinema, Filipov acaba descobrindo que o Bolshoi foi convidado para tocar no Châtelet Theater, em Paris. Decide reunir seus antigos amigos para tocar no lugar da atual orquestra.

Sem se resumir a essa tentativa de reunião, O concerto fornece breve descrição da Rússia pós-queda do comunismo e do desejo de alguns de retomar o comunismo derrubado com o fim da União Soviética.

Sem medo de estragar a experiência cinematográfica de quem, infelizmente, ainda não viu o filme, atrevo-me a adiantar que as finais cenas do filme são primorosas.

As cenas que registram  a apresentação de Filipov (na regência) e da violinista Ann-Marie Jacquet, de tão emocional e musicalmente ricas (Musicalmente. Isso mesmo! Lembrem que tenho audição residual, embora isso não me baste), me fizeram, mais uma vez, lamentar a ausência da música na minha vida – à qual devo me acostumar.

Porque estou num silêncio musical.

E porque tenho medo que esse silêncio se resulte, em mim, em uma identidade incompleta.

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